Foto: Gustavo Tomazi

Assumamos o teto de vidro em comum: quem nunca associou a forma de se vestir, o comportamento ou até mesmo a higiene de um sujeito que está ao nosso lado com a possível intelectualidade e sofisticação que ele é capaz de reunir? E depois de passar a fita métrica, fez um raio x imaginário nos possíveis gostos e preferências e, dá-lhe, carimbou seu nível cultural?

Mas se alguém questionasse você sobre “o que é cultura?”. Qual seria sua resposta? E, ainda: se lhe fosse perguntado como medir e a quem ou a que tipo de pessoa atribuiria o termo, definiria um estereótipo ideal? Esperamos, para estas duas últimas, sonoros “nãos” seus.

Por ora, sua resposta – um tanto gaguejada – ao primeiro questionamento talvez seja: “Bom, cultura é uma daquelas coisas que a gente sabe o que é, mas não sabe explicar”. É passível de compreensão sua falta de precisão, pois o conceito abrange tantos fatores histórico-sociais que nem mesmo sociólogos chegam a uma definição unânime para o termo.

No entanto, pergunte a qualquer um deles uma posição sobre “cultura” e ouvirá coisas péssimas sobre um tal de senso comum.

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É de praxe ligarmos cultura a um estado educacional e de desenvolvimento cognitivo, confundindo o conceito até com inteligência – que, em resumo, é a capacidade de um indivíduo para operações mentais e lógicas. “Nesse sentido, cultura é uma palavra usada para classificar as pessoas e, às vezes, grupos sociais, servindo como uma arma discriminatória contra algum sexo, idade, etnia ou mesmo sociedades inteiras quando se diz que ‘os franceses são cultos e civilizados’ em oposição aos americanos, que são ‘ignorantes e grosseiros’”, esclareceu o pesquisador e professor Roberto da Matta em publicação no Jornal da Embratel, há três décadas.

Não é um conceito classificatório pelo qual se estabelece uma relação de superioridade ou inferioridade entre pessoas, grupos sociais, sociedades ou países. Ela (cultura) funciona como um código de identidade e guia para os seres humanos de um determinado grupo a pensar, classificar, estudar e modificar o mundo e a si mesmos ao longo das necessidades e do tempo

Apesar de datado de 1981, o texto é superatual e também merece destaque por uma comparação feita pelo escritor, quando usa o exemplo de “personalidade” para explicar a mesma alienação de significado que o senso comum fez com “cultura”.

Brevemente em psicologia, “personalidade” é o conjunto de traços que caracterizam e singularizam cada um de nós – como interesses, capacidades e emoções particulares. Em seu sentido vulgar, o termo ganhou repercussão como algo desejável ou invejável em uma pessoa. Sendo assim, certos fulanos, cicranos e beltranos teriam personalidade, e outros, não. WTF?

“Mas, no fundo, todos temos personalidade, embora nem todos possamos ser pessoas belas ou magnetizadoras como um artista da novela das oito”, ironiza, ainda, o pesquisador. E é isso: por mais que uma pessoa faça a “apagadinha”, não significa que ela seja sem personalidade. Essa característica, na real, é um dos aspectos que marcam, então, sua personalidade.

Com a cultura rola o mesmo. Não é um conceito classificatório pelo qual se estabelece uma relação de superioridade ou inferioridade entre pessoas, grupos sociais, sociedades ou países. Ela funciona como um código de identidade e guia para os seres humanos de um determinado grupo a pensar, classificar, estudar e modificar o mundo e a si mesmos ao longo das necessidades e do tempo.

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Do suor carnavalesco ao sabão do Bonfim

Okay. Cultura ali, cultura acolá. Que tudo é cultura e que não há essa de melhor ou pior entre elas você já entendeu. Mas, afinal, existe essa de “cultura popular”, “cultura underground”, “baixa cultura”, “alta cultura”, “cultura americana”, “cultura indígena” e por aí vai?

Diante da verdade de que todas as “subculturas” são equivalentes e que nenhuma forma de cultura secundária é completa e autossuficiente, sim, existe! Nada de errado, até aí.

Sabemos de cor e salteado que a cultura portuguesa ancorou de mala e cuia no Brasil, em 1500, e é ela nossa principal raiz. Por outro lado, somos resultado de um verdadeiro mosaico de vertentes culturais – um quebra-cabeça de mil peças! Apesar da mistura de gente, vinda de todos os lugares, nossa terra tupiniquim tem traços muito fortes dos povos indígena, africano, italiano e alemão. Os índios e negros, principalmente, deixaram suas marcas na música, culinária, folclore, artesanato e nas festas nacionais populares. Isso você já sabe de cor e salteado, né?

Desse jeito, o povo brasileiro inicia a construção de um perfil cultural que dita sua tradição oral, narrativas, canções, religiões, mitos e hábitos coletivos. Desses hábitos, por exemplo, surgem manifestações culturais, como o Carnaval, espetáculos esportivos e comportamentos rotineiros – como ir à praia, curtir jogos de futebol ou as manifestações religiosas, a exemplo da Lavagem das Escadarias do Bonfim.

Diante de tantos “gêneros de cultura”, divergentes pelos seus modos de sentir, celebrar, filtrar e atuar sobre o mundo, Mattos faz um apontamento: “O problema é que sempre que nos aproximamos de alguma forma de comportamento e pensamento diferentes, tendemos a classificar a diferença hierarquicamente, o que é uma forma de excluí-la”.

Quer um exemplo? Observe o Carnaval: vai dizer que nunca ouviu alguém comentar que ele vai contra todo o comedimento e respeito ao “outro mundo” de uma comemoração religiosa, por exemplo? Assim mesmo, com tom de “isso deveria ser proibido”?

É! Somos mesmo resistentes em compreender que a cultura está tão dentro, como também fora – no outro – de nós, afinal, vivemos em uma totalidade na qual cada “subcultura” possui seu papel. Assim como um carnavalesco e um religioso não podem ser comparados, tais festas estão incluídas no mesmo cenário e ajudam a compor as leituras da sociedade brasileira.

Não que precisamos aceitar viver em uma cultura sobre a qual divergimos. Estão aí as “contraculturas” que surgem como alternativa a valores e normas predominantes da sociedade.

Contrastes

Como a cultura compreende não só aspectos intangíveis – que seriam as crenças, ideias e valores -, mas também tangíveis (e aqui entram os objetos, os símbolos ou as tecnologias), há muito que exercitar o entendimento das culturas alheias. Quer uma palinha?

Como a cultura compreende não só aspectos intangíveis - que seriam as crenças, ideias e valores -, mas também tangíveis (e aqui entram os objetos, os símbolos ou as tecnologias), há muito que exercitar o entendimento das culturas alheias

O sociólogo inglês Anthony Giddens faz algumas comparações em seu livro Sociologia:

No Ocidente moderno, consideramos crianças com idade entre 12 ou 13 anos como sendo muito novas para o casamento. Mas, em algumas culturas, casamentos são arranjados entre crianças dessa idade como algo natural. No Ocidente, comemos ostras, mas não comemos gatinhos ou cães de estimação, sendo que ambos são considerados especiarias em algumas partes do mundo. Os judeus não comem porco, enquanto os indianos comem porco, mas evitam carne de gado. Os ocidentais consideram beijar como uma parte normal do comportamento sexual, mas, em muitas outras culturas, essa prática é tanto desconhecida como considerada repulsiva”.

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RG instável

Roberto Matta ainda ressalta que, para a antropologia, “cultura” é descrita como um conjunto de regras que nos dizem como o mundo pode e deve ser classificado e, embora cada cultura possua limitadas normatizações, suas possibilidades de atualização, expressão e reação em situações concretas são infinitas.

Ah, e cultura nada tem a ver com espaço geográfico ou etnia, tá? Na verdade, ela, fixada em um arsenal de potencialidades, se constitui de variadas configurações ou relações que a sociedade estabelece no decorrer de sua história. A partir disso, é explicável por que algumas culturas desenvolvem mais e melhores potencialidades do que outras, o que não significa que esta esteja à frente de outras sociedades – apenas materializa seu dinamismo e influência para com seus membros.

(...) o conceito “cultura” desencadeia um olhar sobre nós mesmos e sobre o próximo, de como ela nos humaniza, pois incentiva a compreensão das diferenças como partes complementares

O pesquisador ainda observa que o nosso sistema – que tanto levanta a bandeira do respeito – confluiu para um poderoso domínio sobre a natureza, caminho oposto ao de sociedades da Amazônia, as quais o senso comum rotula como primitivas.

E aí vai uma pulga atrás da orelha: quem é a cultura atrasada e desprimorada aqui: a sociedade tribal, capaz de entender que respeitar a vida significa incluir toda a forma de vida, ou a nossa, que explora desenfreadamente os recursos naturais a ponto de desequilibrar o meio? Rá! Captou por que é tão absurda a hierarquia de culturas, tão erroneamente pautada pelo senso comum?

Com este questionamento, fica fácil entender como o conceito “cultura” desencadeia um olhar sobre nós mesmos e sobre o próximo, de como ela nos humaniza, pois incentiva a compreensão das diferenças como partes complementares.

Há vida sem cultura?

Não. É inimaginável. Como nos comunicaríamos, estabeleceríamos relações, formaríamos grupos, criaríamos valores e uma pencalhada de “íamos”? É por isso que, quando se fala em cultura, logo o termo “sociedade” salta e vice-versa. Uma coisa é intrínseca a outra.

Independentemente das diversas culturas pelas quais você é influenciado e com as quais se identifica, classe social, nível educacional, gostos artísticos, quantos lugares já viajou, suas preferências de lazer, religião, crenças, valores, bens matérias, nacionalidade e aspirações que o constituem, viva sem rótulos e sem rotular. Superficialidade não conta histórias. Pelo menos não as verídicas.

 

Colaboração: Raquel Carneiro

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Se perguntarmos qual é a moeda de maior valor da atualidade, saberia a resposta? Adiantamos que não tem nada a ver com o preço do dólar, apenas que dedicar uns…

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