Foto: Gustavo Tomazi

Quem viveu no Brasil durante o período do Governo Militar sabe o quanto aqueles tempos foram difíceis. Existia uma pressão social incômoda, pois todos estavam controlados pelo brutal aparelho de repressão do Estado.

Fui parido em 1966, durante os primeiros anos da Ditadura Militar. E para a manutenção do Regime, era necessário que os nascidos naquela época fossem educados sem senso crítico político e social, acreditando que tudo que fosse exótico ou diferente aos interesses da “nação” devia ser negado e combatido.

Foi um tempo em que pairava sobre a nossa sociedade um “estranho incômodo”. Mas, aqueles que controlavam o povo brasileiro com mão de ferro, se esqueceram de uma lei básica da natureza: “para toda ação existe uma reação”. Ou seja, quanto mais oprimida uma sociedade, maior a possibilidade de surgirem nela discursos subversivos e reações libertárias, contrárias ao governo.

Os revolucionários esquecidos de um tempo perdido na memória

E esse foi um dos grandes paradigmas daquela época. Muitos daqueles que viveram no período de 1964 a 1986 tinham certeza de que a sociedade devia mudar suas relações sociais, econômicas e políticas. O problema é que estávamos perdidos pela falta e dificuldade de conseguir informações e conhecimento do mundo à nossa volta. Os militares brasileiros controlavam o Estado na sua totalidade – e isso incluía a imprensa, o rádio, a televisão e as editoras – e tentavam suprimir e censurar notícias do mundo livre e democrático que estava sendo construído fora da América Latina.

Nos anos 1970, a tecnologia de informática estava restrita aos centros de pesquisa de ponta – como a NASA – e a sociedade conectada à internet e a globalização ainda era um sonho distante. Sabíamos (ou imaginávamos) o que acontecia lá fora de forma marginal, pois as coisas novas do mundo e as novas tendências comportamentais chegavam até nós a partir daqueles que viajavam ao exterior e que tinham acesso a subversiva literatura estrangeira.

Em 1981, com 15 anos, saí do interior do estado do Rio Grande do Sul e retornei a Porto Alegre, minha cidade natal, para concluir o antigo segundo grau. Foi naquele ano que ouvi pela primeira vez a música Sociedade Alternativa, composta e interpretada por Raul Seixas.

O Maluco e o Ocultista

Esta obra prima da Música Popular Brasileira, lançada em 1974, tem como base o Manifesto/Gibi da Fundação Krig-Ha, lido e distribuído por Raul Seixas – o Maluco Beleza – durante seu primeiro show em São Paulo em ’73. Este documento proclamava que:

  1. O espaço é livre. Todos têm direito de ocupar;
  2. O tempo é livre. Todos têm que viver em seu tempo e fazer jus às promessas, esperanças e armadilhas;
  3. A colheita é livre. Todos têm direito de colher e se alimentar do trigo da criação;
  4. A semente é livre. Todos têm o direito de semear suas ideias sem qualquer coerção da intelegênzia ou da burrícia;
  5. Não existe mais a classe dos artistas. Todos nós somos capazes de plantar e colher. Todos nós vamos mostrar ao mundo a nossa capacidade de criação;
  6. “Todos nós” somos escritores, donas-de-casa, patrões e empregados, clandestinos e caretas, sábios e loucos;
  7. E o grande milagre não será mais ser capaz de andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas. O grande milagre será o fato de que todo dia, de manhã até a noite, seremos capazes de caminhar sobre a Terra.
Foto: Gustavo Tamazi

Foto: Gustavo Tomazi

Apesar de atualmente essas linhas parecerem tão singelas, foram um coice nos culhões da sociedade brasileira, que sempre teve como base a família careta e reacionária. A proposta apresentada na música de Raul era a criação de uma “irmandade” – idealizada e jamais realizada – que contrapunha o Regime Militar e a Ordem Burguesa instituída. Essa nova sociedade seria baseada e fundamentada na filosofia e nos escritos do ocultista britânico Aleister Crowley – considerado pela imprensa britânica como o homem mais perverso do mundo – e sua Lei de Thelema que pregava: “Faz o que tu queres. Há de ser tudo da lei”. Essa proposta de um novo mundo anárquico, hipersexualizado e libertário parecia ser a solução obvia para a opressão estatal, religiosa e social que nos causava o “estranho incômodo”. Não é à toa que a música Sociedade Alternativa é um dos hinos do movimento da Contracultura Hippie dos anos 1970 no Brasil, que pregava o sexo livre e o uso de drogas alucinógenas para fins recreativos.

Um tempo de relações líquidas

Atualmente, devido à Nova Ordem Mundial – criada pelo somatório do capitalismo, do consumismo, da informática e da internet – vivemos tempos em que as relações são líquidas, ou seja, são permissíveis, adaptáveis, fluídas, voláteis e inseguras.

Atualmente, devido à Nova Ordem Mundial – criada pelo somatório do capitalismo, do consumismo, da informática e da internet – vivemos tempos em que as relações são líquidas, ou seja, são permissíveis, adaptáveis, fluídas, voláteis e inseguras

Esse novo jeito de viver e ver o mundo permitiu que surgissem incontáveis grupos que se propõe a organizar suas vidas, trabalhos e relações humanas de forma alternativa. Por esse motivo, convivemos, atualmente, com vegetarianos, polisexuais, veganos, poligâmicos, eremitas, castos, abstêmios, freaks, junkies, góticos, reclusos, religiosos, ateus, agricultores orgânicos, fazedores de dietas paleolíticas, solitários e solteiros por opção, que vivem completamente em paz com suas opções de vida.

Mas a ideia de uma vida alternativa, que rompe com os padrões tradicionais de comportamento da sociedade, não é nova. No mundo ocidental, os grandes reguladores da conduta humana, desde tempos imemoriais, foram as religiões cristãs. Com o fim da Idade Média no século XV, marcada pela invasão e ocupação de Constantinopla pelos otomanos em 1453, a sociedade ocidental começou a se repensar. Muitos intelectuais e cientistas europeus sabiam que sucesso militar dos islamitas estava relacionado ao desenvolvimento das suas ciências – como a engenharia, medicina, balística e astronomia. E esses mesmos cientistas sabiam que o grande entrave para o desenvolvimento da pesquisa científica era a Igreja, que se contrapunha ferozmente a qualquer inovação que pudesse colocar em risco seu poder secular.

Foto: Gustavo Tamazi

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A obra do grande arquiteto do universo e a sociedade alternativa

Por esses motivos, surgiu um movimento chamado Renascimento, que teve como grande mérito uma inversão de posição do Homem com relação a Deus.

Para os pensadores medievais, o homem é um contemplador da obra de Deus. E ela é imutável e inquestionável: em primeiro lugar está o altíssimo e ele determina os caminhos da humanidade.

Já para os renascentistas, o homem é a grande obra de Deus e, portanto, possui um caráter quase divino, podendo melhorar tudo a sua volta e intervir na construção do grande arquiteto do universo. Para esses novos pensadores, em primeiro lugar, vem o homem e ele é dono do seu livre arbítrio e, portanto, dono das rédeas do seu destino.

O Renascimento abriu caminho para novas formas de enxergar nosso mundo e seus valores humanistas serviram de base para a filosofia Iluminista do século XVIII. Tal movimento intelectual pregava a centralidade da ciência e da racionalidade crítica no questionamento filosófico, o que implicava na recusa a todas as formas de dogmatismo, especialmente o das doutrinas políticas e religiosas tradicionais. Essa nova proposta de ruptura social serviu de base para deflagração de duas grandes revoluções, que mudaram os rumos da sociedade humana para sempre.

Foto: Gustavo Tamazi

Foto: Gustavo Tomazi

Sobre revoluções e liberdade

O primeiro desses conflitos armados que propôs uma forma de vida alternativa foi a Proclamação da Independência dos Estados Unidos, em 04 de julho de 1776. O movimento mostrou ao mundo que índios, negros, mestiços e crioulos podiam, sim, administrar uma nação moderna, sem ajuda de brancos europeus. A segunda foi a Revolução Francesa, que revelou o quanto um rei e uma rainha eram humanos como todos nós e frágeis diante de uma turba faminta de pessoas e que não se precisava de intervenção de um poderoso exército para colocar os nobres na guilhotina.

A partir desses dois ciclos libertários da história mundial surgiram muitos outros pensadores, que sugeriam análises diferentes da sociedade e apresentavam novas formas de ver o mundo. Exemplos destes primeiros formadores de opinião são o francês François Marie Charles Fourier (1772-1837) e o galês Robert Owen (1771-1858).

O primeiro foi um socialista francês da primeira parte do século XIX, um dos pais do cooperativismo e feroz crítico do capitalismo, adversário da industrialização, da civilização urbana, do liberalismo, da Igreja e da família baseada no matrimônio. Era a favor da poligamia e da busca por prazer desmedido. Foi um dos primeiros pensadores a defender abertamente a igualdade entre homens e mulheres. Os entusiastas de suas ideias estabeleceram comunidades intencionais nas três Américas, inclusive no Brasil, para desespero dos caretas do século XIX.

Outro segundo, o galês Robert Owen, foi considerado um dos fundadores do socialismo e do cooperativismo. Ser filho de artesãos e de origem modesta não o impediram de estudar e, com 30 anos, se tornou diretor de importantes indústrias escocesas de fiação, em Manchester. Ali reduziu a jornada de trabalho para 10,5 horas diárias. Foi um grande avanço para a época, pois um típico operário têxtil trabalhava de 14 a 16 horas. Preocupado com a qualidade de vida dos seus empregados, construiu casas para as famílias dos operários, o primeiro jardim-de-infância que se tem notícias e a primeira cooperativa.

Em 1817 evolui da ação assistencial para a crítica frontal ao capitalismo, tentando convencer as autoridades britânicas e estrangeiras sobre a necessidade de reformas na produção. Owen também fundou colônias socialistas pelo mundo, que funcionaram bem nos primeiros anos, mas nunca obtiveram o êxito esperado.

Pensadores e pensamentos alternativos: a proposta de um mundo novo num caldeirão cheio de ideias

No século XIX também surgiram importantes pensadores propositores de novas realidades sociais e políticas, como Auguste Comte (1789-1857), Charles Darwin (1809-1882), Karl Marx (1818-1883), Albert Einstein (1879-1955), Friedrich Nietzsche (1844-1900), Sigmund Freud (1856-1939) e Aleister Crowley (1875-1947).

Esse caldeirão de ideias efervescentes foi derramado dentro do século XX. Juntando a esse caldo subversivo da Ordem uma vida mergulhada dentro de uma sociedade industrial e urbana, em que o dinheiro e o consumo ditavam regras de comportamento. E quando foi somando a tudo isto indivíduos que, por se encontrarem pressionados pelo mundo do trabalho, adoeciam física e mentalmente, se criaram as condições para o nascimento e florescimento das Sociedades Alternativas do século XX.

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Foto: Gustavo Tomazi

As comunidades alternativas do século XX

Esses grupos humanos, na maioria das vezes, se organizavam sob a forma de comunidades agrícolas e sociedades comerciais e procuravam formas cooperativas de vida, nas quais os instrumentos, ferramentas, serviço, rendimentos e benefícios eram comuns a todos. Assim, floresceram no século XX, mundo afora, comunidades alternativas como os Amish, cristãos americanos e canadenses radicais, que vivem isolados do mundo tecnológico – não usam produtos elétricos –, se vestem de preto e possuem língua própria. Outro exemplo são as comunidades agrícolas israelenses chamadas Kibutz, cujas pessoas vivem de forma cooperativa, misturando o sionismo – movimento que defende a tradição e a identidade judaica – com o socialismo.

Nos anos 1970 e 1980, essas sociedades agrícolas autossuficientes se proliferaram por todos os lugares do mundo, agregando indivíduos com filosofias e posturas de vida comuns, como hippies, naturistas, agricultores comunitários e cooperativados.

Da certeza da riqueza ao medo do extermínio

No século XX, o desenvolvimento da química, da farmacologia, da engenharia de alimentos, da petroquímica e da indústria proporcionou o enriquecimento da sociedade humana e, junto com essa benesse, nascia a distribuição de renda desigual, a miséria de muitos, o uso indiscriminado de agrotóxicos, o esgotamento das terras férteis, o desmatamento, o discutível aquecimento global, a poluição e a fome. Todas essas sequelas, em termos planetários, transformaram as certezas da riqueza e do desenvolvimento social da humanidade, nos medos da destruição do ecossistema e do caminho inevitável do extermínio da nossa espécie. Somado a esses problemas, temos a individualização do ser humano proporcionado pela sociedade capitalista e pela tecnologia, que acabou transformando os homens e mulheres em unidades biológicas autônomas e independentes que, aparentemente, não necessitam nunca do outro.

Qual é a sua tribo?

Todas essas mudanças de comportamento, de postura social e impactos econômicos, no nível do indivíduo, colocaram em risco nossa saúde física e mental, afetando diretamente as relações sociais, familiares, profissionais e passionais em todos os seus níveis.

Todas essas mudanças de comportamento, de postura social e impactos econômicos, no nível do indivíduo, colocaram em risco nossa saúde física e mental, afetando diretamente as relações sociais, familiares, profissionais e passionais em todos os seus níveis

Por esse motivo surgiram no século XX indivíduos que, buscando aquilo que chamamos de “politicamente correto”, começaram a adquirir hábitos alternativos.

É por isso que muitas pessoas buscaram formas alternativas de sobrevivência, agregando ao seu dia a dia noções de sustentabilidade, reciclagem e procurando formas de viver mais saudáveis. Surgiram, assim, indivíduos que só se alimentam de comida orgânica, vegetarianos, veganos, macrobióticos, praticantes de meditação, recicladores de lixo, horticultores hidropônicos, produtores de energia caseira, naturistas, esotéricos, celibatários, pagãos, cervejeiros de quintal, padeiros amadores e centenas de outros tipos humanos que se dedicam a ter vidas, atitudes e hábitos alternativos.

E, com o advento da internet e das mídias sociais, participar de uma comunidade “de diferentes” não necessitou mais da presença física do indivíduo no grupo. Achar as pessoas da nossa tribo – aqueles que possuem comportamentos semelhantes a nós – e saber das novas tendências e novidades do grupo se tornou fácil. A tecnologia de informação nos permitiu este maravilhoso mundo novo.

Apesar dos diferentes estilos das sociedades alternativas, existe um elo forte entre elas que – independente de qualquer entendimento, filosofia ou postura dos seus membros – as une: a negação e repulsa desta forma de (sobre)viver sob o jugo capitalista e do consumo.

Fala aí
Outras

Chega de usar "cultura" como arma discriminatória sobre o outro: #SomosTodosCultura!

Se perguntarmos qual é a moeda de maior valor da atualidade, saberia a resposta? Adiantamos que não tem nada a ver com o preço do dólar, apenas que dedicar uns…

Dobro + Bravo